Lá no céu não tem Copa Mundial

Jogadores brasileiros na na Ucrânia.A guerra e o esporte competitivo são feitas da mesma substância.

No Coliseu Romano, o estado romano permitia lutas até a morte, consentia embates esportivos até a morte física do atleta, na ocasião, seres humanos escravizados – que hoje seriam trabalhadores sob risco de desemprego, muito possivelmente –  e que competiam por suas vidas físicas imediatas, e não somente econômicas.

Os espetáculos sangrentos do coliseu, de entretenimento,  de catarse de massa, hoje foram substituídos pelos nossos esportes.  Sobretudo pelo futebol. Não há mais mortes deliberadas, mas a competição continua sendo a essência. Esporte e a guerra sendo gradações dentro de um mesmo leque  de possibilidades: o esporte em grau moderado de agressividade e competição, e a guerra como sendo a competição e agressividade em seu grau máximo, ou ilimitado.

Se essa substância formadora de esporte e guerra  fosse a água, a guerra seria a água  aos 100 graus celsius, que muda de estado, que explode com força destruidora se aprisionada, e não a água que refresca e mata sede de uma pelada de futebol.

E sob o  ponto de vista da saúde psíquica, a competição é um evento humano de alto estresse. E sabendo-se que o stress é a principal raiz das doenças, físicas ou psicológicas, entende-se com facilidade porque grupos humanos mais solidários, mais cooperativos, menos competitivos são mais saudáveis quando se trata de saúde mental, ou mesmo física.

A Guerra na Ucrânia é um sintoma, que apenas revela o quanto essa civilização ocidental – da qual China, Rússia e Índia fazem parte – está doente.
Os traumas da guerra real, das bombas sobre as cidades ucranianas, a destruição de prédios, de áreas verdes, de fazendas, o deslocamento em massa e forçado das pessoas, a perda das casas, a perda dos empregos e dos meios de vida em massa, a quebra das rotinas escolares das crianças e dos jovens, os estupros sexuais –  causados pela guerra que já é  um estupro em essência -, geram, obviamente, traumas psicológicos não só nos jogadores de futebol brasileiros que buscavam seu lugar ao sol nos times na Ucrânia, mas a milhões de pessoas.

E sobre essa guerra, ainda  é necessário lembrar o fato de que há cerca de 100 anos, os ucranianos já haviam passado por tragédia monumental em sua história:

O Holodomor, ou a Fome-Terror,  no inicio dos anos 1930, quando para obtenção de divisas, para trazer dólares para a União Soviética, com a produção em larga escala de  grãos para exportação, Stalin desorganizou a produção agrícola tradicional da Ucrânia, provocando a Grande Fome, que matou milhares de ucranianos, se não milhões, de fome, por literal inanição. Cadáveres foram empilhados na rua e na neve, incessantemente.

A Guerra da Ucrânia deve ser vista com mais profundidade, do que apenas examinarmos, por exemplo,  o quanto traumático está sendo seus efeitos para a saúde psíquica dos jogadores brasileiros expatriados. (Pois estes irão superar seus traumas psicológicos e suas questões trabalhistas, com certeza!).

Essa guerra na Ucrânia  coloca em questão, isto sim, o estado de saúde mental de toda a  civilização humana, a qual tem demostrado ao longo dos milênios pouco discernimento sobre sua capacidade de espelhar a humanidade alheia e acolhê-la.

E que traz à tona um debate persistente nas ciências humanas: o homem é por natureza o lobo do homem? Ou podemos fazer diferente?

Psicólogo Marcelo Prahas

Psicólogo do esporte, formado em psicologia clínica na Universidade de São Paulo. Atleta olímpico Marcelo Moreira Palma. titular de um Osho Center/Meditação. Trabalhando com psicologia do esporte, psicoterapia e técnicas de meditação.

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